A formação em gestão para médicos dentistas vale menos do que gerir bem

A formação em gestão para médicos dentistas é o item que fecha a lista do que a profissão considera importante, e esse dado tem sido citado para dizer uma coisa que ele não diz. Todos os anos, a Ordem dos Médicos Dentistas pergunta aos seus membros que importância atribuem a vários fatores para a qualificação do exercício da profissão. A pergunta é feita numa escala de 1 a 10, e a resposta de 2025 tem um padrão que vale a pena olhar de perto. O que o inquérito diz, e o que não diz Na edição de 2025 do Diagnóstico à Profissão, entre os médicos dentistas que exercem clínica em Portugal, a formação específica em medicina dentária recebeu 9,39 e a comunicação cuidada dos procedimentos 9,42. A formação em áreas de finanças e gestão recebeu 7,12, e é a nota mais baixa dos dezoito fatores avaliados. Aqui costuma vir a conclusão fácil, que é dizer que os médicos dentistas desvalorizam a gestão. O mesmo inquérito desmente-a. A bateria tem uma secção chamada Gestão, e ela pontua alto: Fator, na designação do inquérito Média em 2025 Aquisição de melhores materiais e componentes 8,80 Aposta em maior conforto do consultório 8,43 Maior alocação de tempo ao estudo do utente 8,29 Melhor gestão de custos 8,24 Formação em áreas de finanças e gestão 7,12 Gerir custos vale 8,24. Aprender a gerir vale 7,12. A distância entre estas duas coisas é mais interessante do que a distância entre a gestão e a técnica, e é ela que dá título a este artigo. O que o dado sugere não é indiferença pela gestão. É outra coisa, mais específica: reconhece-se que é preciso gerir, e não se reconhece que gerir se aprende. Três ressalvas antes de continuar A pergunta mede importância atribuída, e mais nada. A formulação literal é “que importância atribui aos seguintes fatores para a qualificação do exercício da profissão”. Não pergunta se a pessoa investiu em formação de gestão, não avalia competência, e não mede resultado nenhum da clínica. Quem transformar esta nota em prova de má gestão está a atravessar três elos que o inquérito não tem. A maioria dos respondentes não é dona de nada. Em 2025, 60,8% exercem em clínica ou consultório de outrem, e 43,9% são donos ou sócios, com acumulação de locais a explicar a soma acima de cem. Um assalariado dar 7 a formação em finanças e gestão pode ser divisão de trabalho, e não cegueira. A OMD não publica o cruzamento entre esta nota e o regime de propriedade, que era o que interessava. Sete não é uma nota baixa. Os dezoito fatores estão comprimidos entre 7,12 e 9,42. Numa escala de 1 a 10, o 7,12 é a nota mais baixa de um conjunto todo alto. E há desejabilidade social a considerar, porque numa lista que inclui sigilo profissional, consentimento informado e comunicação com o doente, e num inquérito enviado pela própria Ordem, o único item de natureza comercial tende a ser penalizado pelo enquadramento. O número está a subir, e é o único que sobe Convém dizer uma coisa que quase nunca se diz quando este dado é citado. Entre 2024 e 2025, a formação em finanças e gestão subiu de 6,61 para 7,12, mais 0,51. É a maior variação de toda a bateria. Os dois topos ficaram praticamente na mesma, com a formação clínica a passar de 9,40 para 9,39 e a comunicação de 9,37 para 9,42. Continua a fechar a lista. Mas está a fechá-la de outra maneira. A profissão transforma clínicos em donos, sem o dizer Há no mesmo estudo um dado que explica boa parte disto, e que raramente aparece em artigos sobre o tema. Até aos 40 anos, apenas 17,7% dos médicos dentistas exercem em clínica própria. Acima dos 40 anos, são 63,5%. Ou seja, a passagem de profissional a dono não acontece por decisão de carreira, nem tem um momento assinalado. Acontece por acumulação de anos. Ninguém, ao longo desse percurso, avisa que a partir de certa altura uma parte crescente do resultado vai depender de decisões que não são clínicas. Não há transição, não há sinalização, e não há na formação inicial nada que a prepare. A nota mais baixa da bateria mede, entre outras coisas, essa ausência de sinalização. O que a profissão declara como dificuldade é gestão Quando a mesma edição de 2025 pergunta pelas dificuldades e ameaças à sustentabilidade económica da profissão, o retrato muda de tom. As respostas mais frequentes foram estas: Tirando a primeira, são todas questões de negócio. Negociação com terceiros pagadores, política de preços, estrutura de custos, modelo de remuneração. Há ainda dois números que ajudam a perceber a pressão. Utentes com seguro ou plano de saúde pagam cerca de 45% menos, com valores na ordem dos 39 a 40 euros. E 60,4% dos médicos dentistas têm remuneração totalmente variável, calculada por percentagem dos tratamentos realizados, com média de 41% por tratamento. Uma clínica que negoceia com seguradoras a preços dessa ordem e paga 41% do tratamento ao clínico tem uma margem que não sobrevive a decisões tomadas por intuição. Isto não vem do inquérito, é aritmética, mas é aritmética que o inquérito permite fazer. A gestão é uma competência, não um traço A ideia mais útil sobre este tema é também a mais simples. Gerir uma clínica é uma competência que se aprende, tal como se aprendeu a técnica. Não é um dom com que se nasce, nem uma qualidade reservada a quem tem perfil para negócios. Isto tem uma consequência libertadora. O dono de clínica que sente que não sabe gerir não está a constatar um limite pessoal, está a descrever uma lacuna de formação. E lacunas de formação preenchem-se. Ler uma demonstração de resultados, calcular a margem de contribuição de um procedimento, dar feedback estruturado a um colaborador ou definir prioridades para a semana são conhecimentos que se adquirem com método. Não vale a pena comparar a dificuldade disto com a de uma técnica dentária avançada,

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